Tuesday, November 07, 2006
quintana 2
Poema da noite
Mário Quintana
De Gramática e de Linguagem
E havia uma gramática que dizia assim:"Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta".Eu gosto das cousas. As cousas sim !...As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.Uma pedra. Um armário. Um ovo, nem sempre,Ovo pode estar choco: é inquietante...)As cousas vivem metidas com as suas cousas.E não exigem nada.Apenas que não as tirem do lugar onde estão.E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.Para quê? Não importa: João vem!E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,Amigo ou adverso...João só será definitivoQuando esticar a canela. Morre, João...Mas o bom mesmo, são os adjetivos,Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. luminoso.Sonoro. Lento. Eu sonhoCom uma linguagem composta unicamente de adjetivosComo decerto é a linguagem das plantas e dos animais.Ainda mais: Eu sonho com um poemaCujas palavras sumarentas escorramComo a polpa de um fruto maduro em tua boca,Um poema que te mate de amorAntes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:Basta provares o seu gosto...
Mário de Miranda Quintana nasceu na cidade de Alegrete (RS), no dia 30 de julho de 1906, quarto filho de Celso de Oliveira Quintana, farmacêutico, e de D. Virgínia de Miranda Quintana. Com 7 anos, auxiliado pelos pais, aprende a ler tendo como cartilha o jornal Correio do Povo. Seus pais ensinam-lhe, também, rudimentos de francês.