As vezes tenho medo de me aproximar das pessoas
Sinceramente. Não quero ver ninguém de perto
Só quero ver as pessoas de longe
Naquilo que elas dizem que são
Sem incoerências
Se encostamos demais nas pessoas
Descobrimos que em verdade
Elas são aquilo que a gente não quer que elas sejam
Mas as pessoas tem o direito de ser aquilo que elas são
E não aquilo que a gente gostaria que elas fossem
Então se mantemos uma distância
Podemos ver aquilo que queremos ver
Então mantenhamos a distância exigida para a convivência possível
Cristiano Dourado, 25 é poeta de meia tigela
Friday, March 28, 2008
Thursday, March 27, 2008
Eu falo das casas e dos homens
Eu falo das casas e dos homens, dos vivos e dos mortos: do que passa e não volta nunca mais.. . Não me venham dizer que estava materialmente previsto, ah, não me venham com teorias! Eu vejo a desolação e a fome, as angústias sem nome, os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, uma insignificante parcela da tragédia. Eu, se visse, não acreditava. Se visse, dava em louco ou em profeta, dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, - mas não acreditava!
Olho os homens, as casas e os bichos. Olho num pasmo sem limites, e fico sem palavras, na dor de serem homens que fizeram tudo isto: esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, esta lama de sangue e alma, de coisa a ser, e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança, se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar - e chorai! As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos, de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição, e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, por um segundo seremos os mortos e os torturados, os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, seremos a terra podre de tanto cadáver, seremos o sangue das árvores, o ventre doloroso das casas saqueadas, sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .
Eu não sei porque me caem as lágrimas, porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, eu que estou na minha casa sossegada, eu que não tenho guerra à porta, - eu porque tremo e soluço? Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?
Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros: as ruas são ruas com gente e automóveis, não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, e a miséria é a mesma miséria que já havia... E se tudo é igual aos dias antigos, apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir, eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta, uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...
Adolfo Casais Monteiro nasceu no Porto, em 4 de julho de 1908, e morreu em São Paulo, em 24 de julho de 1972. Licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras do Porto. Foi também ensaista e crítico de poesia. retirado de www.noblat.com.br
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, uma insignificante parcela da tragédia. Eu, se visse, não acreditava. Se visse, dava em louco ou em profeta, dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, - mas não acreditava!
Olho os homens, as casas e os bichos. Olho num pasmo sem limites, e fico sem palavras, na dor de serem homens que fizeram tudo isto: esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, esta lama de sangue e alma, de coisa a ser, e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança, se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar - e chorai! As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos, de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição, e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, por um segundo seremos os mortos e os torturados, os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, seremos a terra podre de tanto cadáver, seremos o sangue das árvores, o ventre doloroso das casas saqueadas, sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .
Eu não sei porque me caem as lágrimas, porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, eu que estou na minha casa sossegada, eu que não tenho guerra à porta, - eu porque tremo e soluço? Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?
Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros: as ruas são ruas com gente e automóveis, não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, e a miséria é a mesma miséria que já havia... E se tudo é igual aos dias antigos, apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir, eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta, uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...
Adolfo Casais Monteiro nasceu no Porto, em 4 de julho de 1908, e morreu em São Paulo, em 24 de julho de 1972. Licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras do Porto. Foi também ensaista e crítico de poesia. retirado de www.noblat.com.br
Monday, March 24, 2008
caminhos
Eu ia por um caminho
E quando se vai muito tempo por um caminho
A gente acredita que aquele é o caminho possivel
Simplesmente perdemos, momentaneamente, a capacidade de vermos outros
Então eu ia caminhando
E não conseguia ver nenhum outro caminho
De repente fui expulso daquele caminho
Ai percebi que a gente se engana
Porque na verdade existem vários caminhos
Vou por estes caminhos agora
Vou cuidar destes caminhos novos
Com toda atenção, com carinho e dedicação
É certo que vou descobrir
Como descobri no outro
que estes também são possíveis.
Cristiano Dourado 25 e é poeta de meia tigela, meia não um quarto no máximo
E quando se vai muito tempo por um caminho
A gente acredita que aquele é o caminho possivel
Simplesmente perdemos, momentaneamente, a capacidade de vermos outros
Então eu ia caminhando
E não conseguia ver nenhum outro caminho
De repente fui expulso daquele caminho
Ai percebi que a gente se engana
Porque na verdade existem vários caminhos
Vou por estes caminhos agora
Vou cuidar destes caminhos novos
Com toda atenção, com carinho e dedicação
É certo que vou descobrir
Como descobri no outro
que estes também são possíveis.
Cristiano Dourado 25 e é poeta de meia tigela, meia não um quarto no máximo
crianças
tava na roça
querendo a aprender a falar criancês
pensando que nem criança
Clara era minha professora
Ela disse:
Kiu amanhã, tu vai tiver aqui
e eu disse estarei,
Ela não entendeu e retrucou: Kiu tu vai tiver
eu entendi e disse:vou tiver clara, vou tiver
querendo a aprender a falar criancês
pensando que nem criança
Clara era minha professora
Ela disse:
Kiu amanhã, tu vai tiver aqui
e eu disse estarei,
Ela não entendeu e retrucou: Kiu tu vai tiver
eu entendi e disse:vou tiver clara, vou tiver
Quando chegar
Quando chegar
Quero dar um beijo
um beijo dos desesperados
Um beijos dos apaixonados
Estarei ansioso desde cedo
E quando chegar
Meu coração vai disparar
Como o almirante louco do poeta.
E vai ser tão bom
Quero dar um beijo
um beijo dos desesperados
Um beijos dos apaixonados
Estarei ansioso desde cedo
E quando chegar
Meu coração vai disparar
Como o almirante louco do poeta.
E vai ser tão bom
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